Introdução

Seja bem-vindo a este “blog”!

O meu objetivo é o de colaborar para a construção de um mundo melhor. Com este intento, pretendo que este espaço seja recheado de pensamentos, poemas, poesias, quadras e textos de minha autoria e de autores diversos.

Espero que a leitura das matérias aqui publicadas lhe tragam descontração e prazer.

Meus dados biográficos:

Gustavo Dantas de Melo, natural de Borda da Mata/MG. Sou filho dos saudosos Agenor de Melo e Maria Dantas de Melo. Casei-me com Maria Jóia de Melo, filha do comerciante Luiz Jóia Orlandi e Maria Delfino Jóia, donos do antigo “Bar do Ponto”, que serviu como o primeiro terminal rodoviário de Borda da Mata. São nossos filhos: Regina Maria (namorado Rafael), Luiz Gustavo (casado com Adriana), Rosana Maria (casada com Darnei) e Renata. Netos, por ordem de chegada: Gabriel, Mariana, Gustavo, Ana Júlia, João Vítor e Ana Luíza.

Advogado, professor secundário e universitário. Promotor de Justiça dos Estados de Minas Gerais e de São Paulo, tendo sido titular das Comarcas de Bueno Brandão/MG, São Luiz do Paraitinga, Cruzeiro, Mogi das Cruzes e São Paulo. Encerrei a carreira ministerial como Procurador de Justiça de São Paulo/SP. Atualmente, exerço a advocacia em Borda da Mata, minha cidade natal e na região do Sul de Minas Gerais.

Autor da obra “Reflexões”, editada pela APMP, em 2001, uma coletânea selecionada de artigos publicados durante o período em que fui diretor chefe do jornal “A Cidade” de Borda da Mata. Em 2009, trouxe à lume minhas “Farpas do Coração”, um livro de memórias, em que registro fatos vivenciados em quase meio século de vida familiar, social e profissional. Ao mesmo tempo, revelo personagens e acontecimentos pitorescos da querida cidade natal, transmitindo, sobretudo, minha experiência ministerial e vivência na cátedra do magistério universitário, ao abordar temas políticos e jurídicos de manifesto interesse nacional.



quarta-feira, 30 de novembro de 2011

"Apelo à Paz"

          O saudoso Papa João XXIII, em encíclica de seu pontificado, fez séria advertência aos cientistas e cidadãos de todos os povos: a possibilidade de auto destruição da humanidade. Apesar da sua fantástica evolução científica e tecnológica, lamentou Sua Santidade o fato do homem ter utilizado sua inteligência também para “criação de instrumentos de ruína e de morte”, pondo em perigo a sua própria sobrevivência.
          Inegável o risco que todos corremos. Por esta razão, devemos cerrar fileiras com todos aqueles que lutam pela Paz.
         Hoje, trago para nossos leitores interessante apelo de um adolescente que, acredito, viveu momentos de notável inspiração divina. Confiram minha afirmativa com a leitura de tão singela, mas importante mensagem:
          Nos livros de história aprendemos que o nosso planeta Terra já assinou 8000 tratados de paz. Sinal que já aconteceram outros tantos confrontos armados. E o tempo que se passou entre uma guerra e outra foi tempo de paz. Foi tempo em que os homens se prepararam com mais ferocidade para mais uma guerra.
           Nós amamos a paz, precisamos da paz, não podemos viver sem paz. O mundo em que vivemos não é mais uma casa. Ele se transformou numa imensa jaula habitada por animais perigosos.
          Queremos paz entre os povos. Chega de guerras onde irmão mata irmão.
         Queremos paz em nosso Brasil. Não aguentamos mais o clima de violência, de desrespeito, de brutalidade, de roubos e assaltos em que vivemos.
          Que a criança possa estudar e brincar feliz!
          Que o menino de rua encontre corações generosos e abertos à solidariedade!
          Que o trabalhador possa receber o salário que lhe é devido por justiça!
           Que os estádios se encham de gente feliz que torce, que vibra, que respeita o time adversário!
           Que as bocas-de-fumo desapareçam dos nossos bairros!
          Que os bares da cidade tenham sempre menos frequentadores e nossas igrejas e templos fiquem repletos de gente que procura, de coração sincero, o Deus da Paz!
          Que haja comida na mesa de todos e trabalho honesto para quem quer ser gente de verdade!
         Que nunca mais haja mães chorando filhos mortos pela violência e pelo desamor!
         Que eu também, junto com todos os meus colegas, possamos contribuir, dia por dia, na construção de um mundo mais humano e mais digno!
         Obrigado.
         (Mensagem de Anderson da Silva Rosa, jovem estudante da 7a. série “E”, do Colégio Salesiano Dom Bosco de Porto Velho (RO), publicado na Revista “The Lion” de set/out/99).

sábado, 26 de novembro de 2011

"Educação dos Netos"

          Já se disse, com inteiro acerto, que os avós são “pais com açúcar”. E como isso é verdade! A relação neto-avô ou neto-avó de tão adocicada pode até ser algumas vezes prejudicial à educação do descendente.
          É certo que, no desempenho de minhas atribuições ministeriais de atendimento ao público, na época em que exerci a Promotoria de Justiça, testemunhei inúmeros conflitos e problemas decorrentes desta espécie de relação tão comum na vida familiar.
          É um grande e lamentável equívoco acreditar que somos muito experientes e que os filhos e netos devem aceitar, sem questionamentos, nossas decisões e conselhos. A verdadeira sabedoria ensina que “ninguém é dono da verdade”. Estar disposto a ouvir o que o outro tem a dizer e estar aberto ao diálogo é uma regra de vida que todos devemos adotar.
          No final do século, defrontei-me com uma crônica fantástica e muito interessante a propósito do tema. Guardei-a com merecido zelo e  carinho. Sem qualquer dúvida, a matéria traz a opinião abalizada e o testemunho de Maria Helena Brito Izzo, notável terapeuta clínica e familiar da conceituada Revista “Família Cristã”.
          Constitui para mim uma honra brindar os leitores deste “blog”, com tão ricos ensinamentos, que ora transcrevo com imenso prazer:
          “Muitas vezes, o pai e a mãe educam de um jeito e os avós acham que deveria ser de outro. E alguns excedem. Tiram a autoridade dos pais, dão ordens diferentes e exigem obediência. Isso é terrível, pois educar não é função dos avós. Claro que eles também se preocupam com os netos, trocam idéias com os filhos e sua experiência pode ser útil, mas sem tomar o lugar dos pais da nova geração, sugerindo e não impondo.
          Sem querer, os avós acham que sabem mais do que os filhos. Como vinham de uma posição de pais, na qual ditavam as regras, precisam de certo tempo para se adaptar à nova função. É natural, até certo ponto, que confiem mais neles próprios do que nos filhos e acabem se intrometendo. No entanto, não podem tirar a autoridade dos pais, a linha que eles querem dar à educação e o estilo de vida que escolheram.
          É um jogo muito difícil. Os avós têm todo o amor do mundo, querem dar ao neto tudo o que, talvez, não tenham dado aos filhos e, quem sabe, consertar o que fizeram de errado. É preciso, contudo, ter maturidade e sabedoria para se fazer presente sem se intrometer, permanecendo nos limites da função de avô ou avó.
         Um dia tive uma grande lição de minha filha, nesse sentido. Fiz tantas recomendações em relação aos cuidados com as crianças, que ela virou-se para mim e, calmamente, disse: 'Mãe, eles são os meus filhos!' Isso me serviu para o resto da vida. Entendi que avô é aquela pessoa que vai buscar na escola ou fica com as crianças, quando os pais precisam; se pode, dá um dinheirinho extra para os netos se divertirem; e enxuga suas lágrimas quando o pai ou a mãe briga com eles; mas não se mete além do necessário. Se a gente puder somar, maravilha! Mas dividir não será bom para ninguém.” (Autora supracitada, “Revista Família Cristã”, p. 26, agosto/1998)
          Borda da Mata, 26 de novembro de 2.011.
          Gustavo Dantas de Melo

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

"Como é possível ser feliz"

          Todos buscamos a felicidade, mas muitas vezes ficamos confusos e inseguros. Qual seria o segredo, a chave para sua conquista?
           - Na verdade, não existe uma receita de felicidade. Ela se constrói no dia a dia. Exige esforço pessoal na convivência com os outros. Pressupõe a capacidade de se relacionar bem com todos e se sentir em paz, por estar bem consigo mesmo e com o próximo.
          Ser feliz é viver a alegria de servir e ser útil àqueles com quem nos relacionamos. É amar e querer bem as pessoas que nos cercam. É, assim, principalmente, um estado de espírito, de realização pessoal; algo que se encontra dentro de nós mesmos e não o percebemos nos bens e coisas exteriores. Como já tivemos oportunidade de afirmar, “coisas não têm sentimento”.
          Há muitas pessoas pobres felizes com o pouco que possuem e, outras infelizes, embora com muitos bens materiais. Se me sinto infeliz, com certeza, de nada me adianta viajar para Paris, ou qualquer outra cidade maravilhosa, pois levo comigo a amargura que me entristece. Minha mágoa interior me acompanha onde quer que eu esteja.
         A propósito, a terapeuta familiar Maria Helena Brito Izzo, em interessante artigo publicado na conceituada Revista “Família Crista”, de forma precisa, fez observações magistrais que constituem verdadeira regra de vida:
          “Existem pessoas que vivem em função do 'fui feliz' e outras do 'vou ser feliz'. Pode-se tirar do passado um aprendizado, boas ou más recordações, mas ele já se foi.
          O amanhã a gente apenas espera. Dependendo do que se faz agora, constrói-se ou não um futuro feliz.
          A felicidade precisa ser vivida no presente. Do contrário, corre-se o risco de jamais encontrá-la ...
          No fundo, porém, todos nós queremos ser felizes, viver com alegria, paz, saúde, trabalho e boa qualidade de vida. Ser feliz, entretanto, também significa vencer obstáculos, enfrentar desafios, aprender com a vida e criar energias positivas.
          A gente é feliz porque está vivo, sonha, ama, procura, acredita, pensa e realiza.
          A felicidade, na verdade, é muito simples. As pessoas é que complicam tudo. Ela está bem perto de nós, nas coisas mais simples e pequenas do cotidiano ...”
          Finalmente, importante acrescentar o que nos parece o ponto crucial do tema enfocado. Ninguém poderá encontrar a felicidade se não a busca na “Fonte”. Impossível ser feliz, sem ter fé e confiança em Deus, que é nosso Pai. É Ele o Senhor da vida, nossa segurança e bem maior.
          O essencial é a certeza da eternidade revelada por Jesus. A esperança de que o epílogo desta vida passageira é a volta à Casa do Pai, ao lugar que nos está preparado para a posse definitiva da paz e da plena felicidade.
          Borda da Mata, 23 de novembro de 2.011.
          Gustavo Dantas de Melo

domingo, 20 de novembro de 2011

"Tempos Modernos e Relacionamento Familiar"

A psicologia e a vida nos ensinam que o homem necessita mais de carinho do que pão. Principalmente nos seus primeiros anos, o aconchego aos filhos é condição indispensável à sua saudável evolução psíquica. A carência afetiva à criança traz-lhe traumas profundos, problemas sérios e complexos em sua vida íntima e a nível de relacionamento com os outros. Isto acontece simplesmente porque o amor é condição “sine qua non” da felicidade do ser humano, assim como as flores não podem se abrir sem a luz do sol. O homem é filho de Deus, que é Amor. Sua vocação é o querer bem aos outros, sentimento que lhe proporciona alegria e realização. O ódio é uma aberração, uma doença, que lhe causa tristeza e amargura.
A fonte natural do carinho necessário à segurança e harmonia do desenvolvimento humano é a FAMÍLIA. Instituição básica, que jamais deixará de representar o fundamento da sociedade e da Pátria. É ela como uma verdadeira forja de cidadãos autênticos, conscientes de seus direitos e deveres. Sem dúvida, é no colo materno, no aconchego dos pais e na convivência com seus irmãos, que a criança encontra as condições propícias a uma evolução normal e equilibrada. Daí a importância da família como fundamento essencial para a formação do ser humano, preparando-o para os relacionamentos na escola e, mais tarde, no trabalho e na vida comunitária.
Quando falta o amor na infância, o prejuízo afetivo se torna praticamente irrecuperável. Crianças sem carinho, abandonadas: jovens problemáticos, violentos, viciados, infratores; não raras vezes, futuros criminosos, explodindo nos outros e na sociedade a revolta e o ódio que lhes consome o coração. É um desabafo que pouco lhes importa venha atingir pessoas inocentes, como se estas fossem também co-responsáveis pelos problemas que aquelas enfrentam.
Nos dias de hoje, mais do que nunca, é necessária a conscientização da importância da vida familiar. A modernidade trouxe a revolução nos meios de comunicação e a babá eletrônica roubou o tempo necessário à troca de idéias, ao diálogo familiar entre pais, filhos, irmãos, parentes e amigos, cada vez mais escasso. Quem não tem saudades das descontraídas reuniões familiares de lazer, de bate-papo até altas horas da noite?
É preciso reconhecer o prejuízo que toda essa agitação da vida moderna nos trouxe. É a era da informática e da comunicação, do computador eletrônico, da TV digital, “facebook”,ipad”, “orkut”, do relacionamento “on line”, via “internet”, encurtando fantasticamente as distâncias. Sem dúvida, era de grande conforto, mas, por outro lado, nos custou um preço muito alto.
É um corre-corre pra lá e pra cá. Um trabalho insano que nos consome os dias e as horas e que parece nunca ter fim. Ninguém tem mais tempo para nada. A alienação é total! Conversar como? O rádio e a TV estão ligados desde cedo, trazendo notícias e melodias preferidas das últimas paradas de sucesso; também não se pode perder o interessante capítulo da novela, os filmes ou o jornal nacional. Assim, paradoxalmente, vivemos também a era do egoísmo e do isolamento implantados pelo computador, rádio e TV.
Isso tudo nos questiona muito e nos obriga a buscarmos uma forma de repensar o que estamos fazendo no dia a dia. Enfim, é preciso encontrar uma solução, um meio termo capaz de conciliar o interesse de usufruir das vantagens da modernidade, sem esquecermos das riquezas do convívio familiar.
No terreno moral, vivemos a era do “tudo é permitido”, “nada é proibido” e alguns chegam ao cúmulo de pretender “liberação total”. Assistimos o afrouxamento dos costumes, a corrupção, o vício mortal das drogas, a banalização do sexo, a dissolução dos vínculos familiares e a falta de religiosidade.
Muitos se esquecem de que, na hierarquia de valores, Deus deve ocupar o primeiro lugar. Vivem desnorteados, sem direção, olvidando que a vida é uma simples passagem rumo à eternidade. Não se lembram das lições do Mestre, preferindo ser servidos, sem a alegria de “servir”. Apegam-se a valores passageiros e não trilham caminhos seguros, da verdadeira felicidade. Seduzidos pelo falso brilho das drogas, do apego aos bens materiais e das ilusões fugazes, buscam os atalhos da perdição e da ruína.
Para onde estamos caminhando? O que para nós é de fato importante?
Roguemos ao Senhor sabedoria para distinguirmos o que não deve ter muita importância e para cultivarmos os valores realmente essenciais da existência. Ainda é tempo de repensarmos a vida. Nunca é tarde para mudarmos o que precisa e deve ser urgentemente modificado.
Borda da Mata, 20 de novembro de 2.011
Gustavo Dantas de Melo

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"Homenagem Póstuma a José Pinheiro"

Na semana passada, noite de 8 de novembro, chegava em nossa cidade a notícia do falecimento do nobre amigo José Álvaro Pinheiro Neto.
O triste acontecimento nos pegou de surpresa, pois, embora em idade avançada (93 anos), Senhor José Pinheiro desfrutava de boa saúde. Era ele um homem de personalidade marcante: alegre, comunicativo, religioso, solidário nas causas sociais e de acentuado espírito cívico. Gostava de participar das celebrações de sua comunidade. Sempre alegre, gentil e bondoso, um homem de bem com a vida, um verdadeiro “gentleman”. Por isso mesmo, conquistou muitíssimos amigos aqui em Borda da Mata, cidade natal que muito amou.
Há pouco mais de um ano, perdera sua prendada esposa, Dona Edith, sua alma gêmea. Dava para perceber como lhe foi dolorosa sua falta, o que segredava a seus amigos mais chegados.
José Álvaro Pinheiro Neto se orgulhava muito de ser filho de Borda da Mata. Muito cedo foi para São Paulo, cidade que o acolheu generosamente. Lá construiu sua família e se dedicou a várias atividades profissionais e sociais. Foi empresário e comerciante, chegando a estabelecer-se como proprietário de bar na Avenida São João e ainda armazém, no ramo de secos e molhados.
Dedicado ao trabalho e líder nato, em tempos difíceis , chegou a presidir o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Cinematográfica. Foi esportista e torcedor do tricolor paulistano, ajudando a fundar a equipe do São Paulo e a fortalecer sua grande torcida. Colaborou na construção do Morumbi, chegando inclusive a vender títulos e cadeiras cativas para o sucesso do empreendimento do seu time do coração.
Há 35 anos, após sua aposentadoria, decidiu retornar com sua amada Dona Edith para sua querida Borda da Mata, ocasião em que mantiveram uma agência da Loteria Esportiva. O estimado casal pode então desfrutar do convívio desta cidade acolhedora e, com generosidade, ofertar amizade e carinho aos seus inúmeros amigos e amigas.
Porém, neste último ano, nem o carinho de sua família, que sempre o amou muito, nem a estima de seus conterrâneos puderam aplacar a dor e a saudade de Dona Edith. A solidão lhe desassossegava a alma e o coração. A saudade da esposa amada o entristecia. Até que, como que adivinhando a hora da morte, foi rever e se despedir de suas filhas, genros e netos em São Paulo, onde veio a falecer. De lá hoje volta para sua querida terra natal, pela última vez, para unir-se a ela para sempre, como prometeram um ao outro, há 68 anos passados.
Edih e José agora continuam juntos, como tinha de ser.
Rogamos a Deus sejam acolhidos na morada que lhes está preparada, desde sempre, desfrutando de merecida posse definitiva do Amor e da Paz.
À família enlutada por tão grande perda, os sentimentos de pesar e solidariedade de seus amigos e conterrâneos.
Borda da Mata, 17 de novembro de 2.011.
                   Gustavo Dantas de Melo

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"Amar é dar-se"

          O amor é uma estrada de mão única. Ela sai sempre de você para ir aos outros. Cada vez que você toma um objeto ou alguém para si, você cessa de amar, porque pára de dar. Você anda na contra-mão.
          Tudo aquilo que você encontra em seu caminho é feito para permitir que você ame cada vez mais: o alimento para sustentar a vida que você deve dar minuto por minuto; o automóvel para que você possa dar-se mais depressa; o disco, o filme, o livro para enriquecê-lo, distraí-lo e ajudá-lo a dar mais e melhor; os estudos para conhecer e permitir que você sirva melhor os outros; o trabalho para dar sua parte de esforço na construção do mundo, na obtenção do pão de cada dia; o amigo para se darem um ao outro e juntos, mais ricos, entregarem-se aos outros; o esposo, a esposa para juntos darem a vida; a criança para dá-la ao mundo e depois a um outro ...
          Siga a estrada! Acolha tudo o que for bom, mas para dar tudo. Se você guardar para si alguma coisa ou alguém, não diga que ama esse objeto ou essa pessoa, pois no instante que você o separa para retê-lo - mesmo que fosse por um só instante - o amor morre em suas mãos.
          Se você colhe flores é para fazer com elas um buquê. Se você faz um buquê é para oferecê-lo à sua amada ... porque a flor não foi feita para murchar em suas mãos, mas para trazer alegria e fazer nascer o fruto. Se ao colhê-la, você não tem coragem de oferecê-la, continue o seu caminho.
          Assim, na vida: se você se sente incapaz de passar diante de um objeto ou de um rosto sem tomá-los só para você, então siga seu caminho. Para amar é preciso ser capaz de renunciar-se a si mesmo.
          Se você estiver “preso”, para amar é preciso “desprender-se”. Ser desprendido não é ser indiferente; ao contrário, é estimar, admirar, saborear, amar de tal forma que não queira monopolizar, ou permanecer um único instante sem fazer os outros participarem de suas riquezas. O verdadeiro amor torna-nos livres, porque nos liberta das coisas e de nós próprios.
          Ama mais aquele que dá mais. Se você quiser amar até o fim, precisa estar pronto a dar toda a sua vida, isto é, a morrer para si mesmo, pelos outros e pelo outro.
          (Da obra “Construir o Homem e o Mundo” de Michel Quoist, edição “Livraria Duas Cidades”, 35a. ed., págs. 173/175).

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

"O detento Cintura Fina"

Bom humor faz bem à saúde. Pessoas amargas e rancorosas, de mal com a vida, costumam afastar os outros.
Meu amigo, Dr. Sílvio Fausto de Oliveira, neto de meu padrinho José Modesto, é um exímio e bem humorado contador de estórias. Falante e extrovertido, toda vez que nos encontramos, gosta de narrar os seus casos, sempre divertidos.
Hoje, tenho a alegria de trazer para cá uma das crônicas de sua notável obra “Recordações Pitorescas de Barro Preto”, Editora Vitória, edição 1993, páginas 187/188. O livro retrata muito bem o excelente humor do seu autor. O personagem “Cintura Fina”, embora pareça real, com certeza, é pura criação da fértil imaginação do preclaro amigo, promotor de justiça aposentado, atualmente morador da bela cidade de Uberaba/MG:
        “José Plutarco de Arimatéia era um rapagão moreno, um quarentão desengonçado, um carioca divertido, conhecido nas rodas da prostituição pela alcunha de Cintura Fina. A polícia também o distinguia, mas como exímio navalhista do antro das mariposas, assim chamada a zona boêmia da cidade. José Plutarco de Arimatéia não tinha nenhum parente ou amigo, nenhum vínculo com a terra do Manduri, ninguém sabia explicar como foi que ele um dia surgiu na cidade.
          Naquela época, como os desmunhecados não faziam concorrência às mulheres do meretrício, José Plutarco de Arimatéia ganhava a vida trabalhando como garçon na boite Alvorada. Graças a sua delgada silhueta e os requebros com a bandeja, pelo salão de dança, servindo os fregueses, ele recebeu o sugestivo apelido de Cintura Fina. Apesar dos vários anos que morou na pequena cidade de Barro Preto, jamais perdera o sotaque do carioca da gema, pois sempre puxava os “erres” com muita sutileza e elegância.
Certa madrugada, quando o movimento da boite estava pra lá de fraco, as putas sonolentas nas mesas, um gaiato embriagado e insolente resolveu tirar umas casquinhas do Cintura Fina. Foi o bastante para que o carioca, criado no morro, no meio da nata da malandragem, virasse uma fera, distribuísse sopapos no atrevido, obrigando os policiais militares, em número de cinco, a intervir. No meio do entrevero, Cintura Fina sacou da navalha e desferiu golpes a torto e a direito, defendendo-se como pode, até que foi dominado e preso. No final da refrega, Cintura Fina apresentava muitas escoriações pelo corpo; e os milicianos, ferimentos cortantes nos braços e nas mãos.
Certo dia da semana, o promotor de justiça, conforme determinação legal, na companhia do carcereiro, foi fazer uma visita de praxe na cadeia da cidade. Ao passar pela cela seis, se assustou ao ver sentada na cama o vulto de uma mulher bem vestida e bem pintada. O representante da sociedade, embora surpreso, não titubeou, pois virou-se rápido para o carcereiro e protestou:
- Dedé, como é que o senhor colocou na mesma cela, no meio de tantos presos do sexo masculino, uma mulher?
- Doutor, esse cara aí é homem, mas efeminado. É o famoso Cintura Fina, que gosta de se vestir de mulher - esclareceu o aflito guarda da cadeia.
Nesse instante, aproximou-se da porta da cela uma mulher de turbante colorido na cabeça, vestida de blusa escarlate, que escondia um volumoso sutiã, de saia marrom comprida e rodada com uma faixa larga de seda castanho apertando o fino quadril, de sapato alto, cheia de bijuterias cobrindo o pescoço e enfeitando os braços, de batom nos lábios e ruge rosa nas faces. Entre o vão da grade, Cintura Fina estendeu a mão de unha esmaltadas, e numa voz amaricada falou:
- Muito prazer, doutor promotor. Eu me chamo José Plutarco de Arimatéia, mas todos me conhecem por Cintura Fina.
O promotor de justiça não respondeu a saudação, mas logo compreendeu o que estava acontecendo no presídio. Sem demonstrar nenhuma perplexidade diante do inusitado quadro, procurou de imediato uma solução para o intrincado problema. Para tanto, perguntou ao efeminado detento porque ele estava preso, quanto tempo ainda faltava para cumprir a pena, e se ele não desejava, porventura tivesse direito, ganhar a alforria, tirar o restante da pena em liberdade condicional. Mal o doutor ouviu do carcereiro que o preso estava cumprindo pena de dois anos e quatro meses de reclusão, pelo crime de furto, em regime fechado, mas que iria, quanto antes, transferi-lo para uma cela individual, na ala correcional, Cintura Fina encostando a boca no meio das grades, numa voz melosa, interveio:
Doutor, muito obrigada, daqui não saio nunca, nem morta!”
Sílvio Fausto de Oliveira (obra citada)